Como Funciona o Episódio de Apneia?
Durante uma apneia obstrutiva do sono, ocorre um colapso das vias aéreas superiores na região da faringe. Quando você dorme, os músculos da garganta relaxam naturalmente, mas em pessoas com apneia, esse relaxamento é excessivo, fazendo com que a via aérea se feche parcial ou completamente.
Imagine como se fosse um canudo que se fecha enquanto você tenta respirar através dele. Seu corpo continua fazendo força para respirar, criando uma pressão negativa no peito, mas o ar não consegue passar. Durante cada episódio, que dura pelo menos 10 segundos (podendo chegar a mais de um minuto), seu organismo entra em estado de asfixia.
O Que Acontece Durante Cada Parada Respiratória
Quando a respiração para, duas coisas críticas acontecem no seu corpo:
Hipóxia: A quantidade de oxigênio no sangue diminui drasticamente. É como se todas as células do seu corpo começassem a “passar fome” de oxigênio.
Hipercapnia: O dióxido de carbono (CO₂) se acumula no sangue, criando um ambiente tóxico. É como se você estivesse respirando em um ambiente com ar viciado.
Esses eventos fazem com que sensores especiais no seu corpo (chamados quimiorreceptores) detectem o perigo e mandem sinais urgentes para o cérebro: “Precisa respirar agora!”. O cérebro então causa um microdespertar – você não acorda completamente, mas sai do sono profundo o suficiente para que os músculos da garganta se contraiam e reabram a via aérea.
O Efeito Cascata no Sistema Cardiovascular
Cada episódio de apneia desencadeia uma tempestade no seu sistema cardiovascular:
Sistema Nervoso Simpático em Alerta Máximo
O sistema nervoso simpático – responsável pelas reações de “luta ou fuga” – é ativado intensamente. É uma resposta muito semelhante a ser assaltado ou ser atacado por um animal. A diferença é que isso acontece a noite toda, como se seu corpo pensasse que está em perigo constante. Isso causa:
- Liberação maciça de adrenalina e outros hormônios do estresse
- Vasoconstrição: os vasos sanguíneos se contraem violentamente
- Picos rápidos de pressão arterial: a cada pausa, a pressão dá um pico de poucos segundos, que em casos graves pode passar de 180 a 200 mmHg. Não é uma pressão alta contínua, mas essa oscilação, repetida centenas de vezes por noite, sobrecarrega o coração e os vasos ao longo do tempo

Coração Sob Pressão
A cada episódio, seu coração sofre um stress tremendo:
- Aumento súbito da frequência cardíaca
- Maior risco de arritmias (batimentos irregulares)
- Hipertrofia do ventrículo esquerdo (o músculo cardíaco fica “inchado” de tanto trabalhar)
- Risco aumentado de infarto e insuficiência cardíaca
Impactos da Apneia do Sono nos Sistemas Específicos
Sistema Respiratório
- Hipertensão pulmonar: a pressão nos pulmões aumenta devido à falta de oxigênio
- Alterações no centro respiratório do cérebro
- Redução da capacidade pulmonar ao longo do tempo
Sistema Endócrino e Metabólico
A apneia causa um caos hormonal:
Resistência à Insulina: A hipóxia e o estresse fazem com que as células não respondam adequadamente à insulina, aumentando o risco de diabetes tipo 2. É como se as “fechaduras” das células (receptores de insulina) ficassem “enferrujadas”.
Hormônios do Apetite Desregulados:
- Grelina (hormônio da fome): aumenta drasticamente
- Leptina (hormônio da saciedade): diminui
- Cortisol Elevado: O hormônio do estresse permanece alto, causando ganho de peso e alterações metabólicas.
Sistema Nervoso
Função Cognitiva Comprometida:
- Perda de memória e dificuldade de concentração
- Tempo de reação lento (similar ao efeito do álcool)
- Maior risco de acidentes de trânsito, cerca de 2 a 3 vezes maior, ainda mais nos casos graves e com muita sonolência (o tratamento com CPAP reduz bastante esse risco)
- Alterações de humor, depressão e ansiedade
Risco de AVC: a apneia praticamente dobra o risco de AVC, de forma independente de fatores como pressão, peso e diabetes (estudo publicado no New England Journal of Medicine, 2005), pela combinação de hipertensão, alterações no fluxo sanguíneo cerebral e maior tendência à formação de coágulos.
Sistema Reprodutor
A apneia afeta profundamente os hormônios sexuais e a função reprodutiva tanto em homens quanto em mulheres:
Impactos no Sistema Reprodutor Masculino:
Queda da Testosterona: A hipóxia intermitente e a fragmentação do sono podem inibir a produção de testosterona através da supressão do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas. A apneia obstrutiva está associada a níveis mais baixos de testosterona, sobretudo nos casos mais graves e em homens com obesidade. Boa parte dessa relação, porém, é explicada pelo próprio excesso de peso, e tratar a apneia isoladamente nem sempre normaliza o hormônio.
Disfunção Erétil: A combinação de baixa testosterona, problemas vasculares, estresse oxidativo e alterações no fluxo sanguíneo peniano fazem com que homens com apneia tenham risco significativamente maior de impotência. A apneia é considerada um fator de risco independente para problemas de ereção.
Redução da Fertilidade: A qualidade do esperma é prejudicada pela hipóxia e pelo estresse oxidativo, resultando em menor contagem de espermatozoides, redução da motilidade espermática e aumento da fragmentação do DNA espermático. Isso pode causar dificuldades para engravidar e maior risco de abortos espontâneos.
Impactos no Sistema Reprodutor Feminino:
Irregularidades Menstruais: A apneia pode causar ciclos menstruais irregulares devido às alterações hormonais, dificultando a identificação do período fértil e reduzindo as chances de concepção.
Redução da Fertilidade: Mulheres com apneia podem apresentar dificuldades para ovular adequadamente devido ao desequilíbrio dos hormônios FSH (folículo estimulante) e LH (luteinizante), essenciais para a ovulação saudável.
Problemas na Menopausa: A apneia se torna mais comum após a menopausa devido à queda dos níveis de estrogênio e progesterona, que naturalmente ajudam a manter o tônus muscular das vias aéreas. A deficiência hormonal combinada com a apneia pode criar um ciclo vicioso de piora dos sintomas menopausais.
Complicações na Gravidez: Mulheres grávidas com apneia têm maior risco de hipertensão gestacional, diabetes gestacional e complicações durante o parto.
Sistema Imunológico
A apneia do sono causa uma disfunção profunda no sistema imunológico, criando um estado de inflamação crônica no organismo:
Estado Inflamatório Persistente: A hipóxia intermitente e a fragmentação do sono fazem com que o corpo produza constantemente citocinas pró-inflamatórias como IL-1, IL-6 e TNF-α. É como se o organismo estivesse sempre “lutando contra uma infecção” que não existe.
Supressão da Imunidade: O aumento do cortisol e o estresse oxidativo causam imunossupressão, reduzindo a capacidade do corpo de combater infecções reais. Isso resulta em maior susceptibilidade a resfriados, gripes, pneumonias e outras doenças infecciosas.
Desequilíbrio das Células de Defesa: Ocorre uma redução nas células CD3+, CD4+ e CD8+ (linfócitos importantes para a defesa) e uma alteração no equilíbrio entre a resposta imune celular (Th1) e humoral (Th2), favorecendo um padrão similar ao observado em doenças autoimunes.
Redução da Atividade das Células NK: As células Natural Killer, que ajudam a defender o corpo, podem ter a atividade reduzida. Pesquisas em laboratório sugerem que isso poderia enfraquecer as defesas contra tumores, mas é importante deixar claro que se trata de uma hipótese em investigação: não está provado que a apneia cause câncer em pessoas.
Estresse Oxidativo: O Ataque dos Radicais Livres
Um dos efeitos mais danosos da apneia é a criação de radicais livres. A cada ciclo de falta de oxigênio seguida de reoxigenação, é como se você fizesse um “exercício extremo” para suas células, gerando substâncias tóxicas que danificam:
- Vasos sanguíneos (acelerando o processo de aterosclerose)
- Células do coração
- Neurônios no cérebro
- Células do pâncreas (piorando o diabetes)
O Ciclo Vicioso
A apneia cria um ciclo vicioso difícil de quebrar:
1. Apneia → Ganho de peso (devido aos hormônios alterados)
2. Ganho de peso → Piora da apneia (mais tecido na garganta)
3. Apneia pior → Mais problemas metabólicos
4. Mais problemas → Mais ganho de peso
Impacto na Saúde Global
Cardiovascular: cerca de metade das pessoas com apneia também têm pressão alta, e a apneia é uma causa reconhecida de hipertensão de difícil controle. Estudos de longo prazo mostram que a apneia grave chega a quase triplicar o risco de desenvolver hipertensão. O risco de infarto, arritmias e insuficiência cardíaca também aumenta.
Metabólico: A prevalência de diabetes tipo 2 é muito maior em pacientes com apneia, independentemente do peso.
Neurológico: Maior risco de demência, perda de memória e acidentes devido à sonolência.
Imunológico: Maior susceptibilidade a infecções. A relação com alguns tipos de câncer é uma hipótese ainda em estudo, não uma certeza.
Reprodutivo: Redução da fertilidade, disfunção sexual, irregularidades menstruais e complicações hormonais que afetam a qualidade de vida sexual e reprodutiva.
Qualidade de Vida: Sonolência excessiva, depressão, problemas de relacionamento e redução significativa da produtividade.
A Boa Notícia
O aspecto mais importante é que o tratamento da apneia pode reverter muitos desses problemas. Quando a respiração é normalizada durante o sono (com CPAP, aparelhos intraorais ou cirurgia), observa-se:
- Redução da pressão arterial
- Melhora do controle do diabetes
- Redução do estresse oxidativo
- Melhora da função cognitiva e do humor
- Melhora do ronco, da sonolência e da qualidade de vida
O tratamento melhora comprovadamente os sintomas, o sono, o humor e a qualidade de vida, além de ajudar no controle da pressão. Tratar vale muito a pena pelos sintomas, pela pressão e pela qualidade de vida.
Isso demonstra como um distúrbio aparentemente “simples” do sono pode ter consequências profundas para todo o organismo, mas também como o tratamento adequado pode transformar a saúde e a qualidade de vida de uma pessoa. Veja como funciona a cirurgia do ronco e da apneia.
Perguntas frequentes
A apneia do sono causa câncer?
Não está provado. Pesquisas de laboratório sugerem que a falta intermitente de oxigênio pode enfraquecer parte das defesas do corpo (as células de defesa NK), mas isso ainda é uma hipótese em estudo, não uma relação de causa e efeito comprovada em pessoas.
Tratar a apneia previne infarto e AVC?
O tratamento melhora comprovadamente o ronco, a sonolência, o humor, a qualidade de vida e ajuda no controle da pressão. Já a prevenção de infarto e AVC não foi demonstrada pelo maior estudo randomizado (SAVE, 2016). Ainda assim, tratar é muito importante pelos sintomas, pela pressão e pela qualidade de vida.
A apneia aumenta a pressão?
Sim. A cada pausa há um pico rápido de pressão, e ao longo do tempo a apneia é uma causa reconhecida de pressão alta, sobretudo a de difícil controle. A apneia grave chega a quase triplicar o risco de hipertensão.
Referências
- Peppard PE, Young T, Palta M, Skatrud J. Prospective study of the association between sleep-disordered breathing and hypertension. New England Journal of Medicine. 2000;342:1378-1384.
- Yaggi HK, et al. Obstructive sleep apnea as a risk factor for stroke and death. New England Journal of Medicine. 2005;353:2034-2041.
- Tregear S, et al. Obstructive sleep apnea and risk of motor vehicle crash: systematic review and meta-analysis. Journal of Clinical Sleep Medicine. 2009.
- McEvoy RD, et al. CPAP for Prevention of Cardiovascular Events in Obstructive Sleep Apnea (estudo SAVE). New England Journal of Medicine. 2016.
- Su L, et al. Association between obstructive sleep apnea and male serum testosterone: a systematic review and meta-analysis. Andrology. 2022.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.
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Sobre o autor
Dr. José Eduardo Marcondes
Médico Otorrinolaringologista · CRM-SP 107.711 · RQE 43.840
Formado e residente pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), com mais de duas décadas de experiência. Pioneiro no uso da cirurgia robótica (TORS) para apneia do sono. Membro do corpo clínico do Hospital Albert Einstein, Vila Nova Star e São Luiz. Membro da ABORL-CCF.
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